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04/04/2019
O que se pode aprender com casos de violência em massa nas escolas

Por: Francine Tiecher

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Perceber o comportamento de jovens e prestar auxílio é uma corresponsabilidade entre educadores e família

 

Nos últimos dias, notícias sobre casos de violência em massa em escolas têm sido frequentes nos veículos de comunicação. Essas situações reascendem o debate sobre o papel das instituições, família, escola, da educação e a influência de jogos e filmes violentos nos comportamentos adotados por crianças e adolescentes.

Discussões têm sido levantadas sobre o comportamento violento de adolescentes, sobre o quanto jogos e filmes com esse conteúdo influenciam para que casos como o da Escola Raul Brasil, de Suzano, aconteçam. De acordo com a professora do curso de graduação e mestrado em Psicologia da IMED, Dra. Naiana Dapieve Patias, que há cerca de 11 anos estuda temas relacionados à Psicologia Escolar/Educacional, deve-se ter cuidado ao afirmar que os jogos e filmes são os grandes vilões. “Algumas pesquisas desenvolvidas tanto no Brasil como em outros lugares do mundo apontam que há uma influência naquilo que crianças e adolescentes observam, tanto no contexto real quanto no de games, e no seu comportamento violento. Apenas 10% dos casos de comportamentos violento podem ser explicados por influência tecnológica. Ou seja, existem outros 90% de fatores e aspectos que influenciam e/ou desencadeiam o comportamento violento em crianças e adolescentes. Além disso, é mais comum a influência em crianças menores de 7 anos que ainda não distinguem bem a fantasia da realidade”, explica.

A professora ainda frisa que “não se pode afirmar que um único aspecto como jogar um videogame ou ver um filme violento vai causar um comportamento violento, até porque crianças e adolescentes estão expostos, todos os dias, a várias situações de violência, nem sempre sendo a própria vítima, mas muitas vezes sendo a testemunha da violência. Eles podem influenciar, mas não temos um consenso de pesquisas e literatura que afirmam que os jogos são os responsáveis por esse tipo de comportamento, até porque os jogos podem ser aspectos importantes para o desenvolvimento e para a socialização. Desta forma, não se pode colocar a culpa em um único aspecto para explicar uma violência em massa”.

Imagem de Igor Ovsyannykov por Pixabay

 

Com base em laudos e documentos gerados a partir de casos de violência e massacres em escolas cometidos por jovens, principalmente dos ocorridos nos Estados Unidos, duas pesquisadoras brasileiras fizeram uma análise buscando encontrar explicações e verificar os motivos pelos quais esses casos aconteceram.

“A complexidade de fatores que leva os jovens a cometer esses atos vai desde fatores individuais como ter algum transtorno mental (transtorno depressivo maior, transtorno de personalidade), como o fato de ser vítima de bullying, até questões ambientais. No que diz respeito às questões ambientais, cabe salientar a educação recebida pelos adolescentes que cometeram violência em massa nas universidades. Geralmente, tiveram pais e/ou cuidadores negligentes, sem a presença de limites ou autoridade, com pouco afeto e utilização de punição física ou ameaças”, aponta a pesquisadora.

Para além de outras questões como ideação suicida, humor deprimido, baixa tolerância a frustração desses adolescentes, isso leva a pensar que, a história desses jovens que cometeram esses atos de violência nas escolas é muito complexa, pois houve na maioria dos casos, falta de cuidado ou um “cuidado” baseado na punição e na violência. Ou seja, a violência produz mais violência.

“Historicamente, esse tipo de ‘educação’ está presente, no Brasil, desde a chegada dos Jesuítas que utilizavam da violência para catequisar os índios. Eles aprenderam que a punição poderia ser utilizada e repetiram o mesmo com seus próprios filhos. Isso quer dizer que ao longo da nossa história, há uma legitimação, uma naturalização e uma banalização da violência como forma de resolver conflitos”, contextualiza Naiana.

Em outras palavras, há uma dessensibilização à violência. Isso quer dizer que as pessoas vão se acostumando com uma série de “pequenas” violências, sem se dar conta de que se é violentado, da mesma forma como se é violento. Há uma aceitação de que se pode resolver diversas situações por meio da violência, seja física ou verbal. E é isso que produz a sensação de que a violência é permitida.

Por que esses casos acontecem nas escolas? Segundo Naiana, isso se dá, pois, a escola é uma instituição social que reproduz aquilo que ocorre fora dela. E a violência está em todos os cantos do país, em todas as relações, sendo naturalizada. 

“Além de inúmeras regras, que muitas vezes nem crianças e nem adultos sabem explicar porque existem, a escola é um lugar de normas e valores, sendo uma instituição que espera determinados comportamentos dos seus alunos. Dessa forma, a escola não é uma instituição neutra, ela reproduz uma série de comportamentos, crenças e exclusões da nossa sociedade, mesmo sem se dar conta disso. Por exemplo, ao pensar numa educação que tente contemplar a maioria de uma forma mais homogênea, a escola deixa de considerar as especificidades e as individualidades de cada aluno. Isso pode produzir, muitas vezes, uma sensação de desamparo nas crianças e nos adolescentes, uma situação de estar sendo violentado, pois a escola nem sempre apresenta um discurso que condiz com a realidade do aluno. Também não são raros os casos nos quais os alunos são taxados e rotulados, seja por suas condições sociais ou por suas dificuldades individuais e familiares, e as crianças e adolescentes sentem isso”, exemplifica a docente.

 

Esses casos estarem acontecendo nas escolas sinaliza que algo de errado está sendo vivenciado nesse ambiente, havendo uma corresponsabilidade com a família. “Pais e educadores precisam abrir espaços para que os adolescentes possam ser escutados, para que se possa entender o que está se passando, observar os comportamentos que se distanciam dos esperados e identificar as mudanças bruscas de comportamento. Uma coisa a se observar é que todos os casos de violências nas escolas são planejados e pensados, e são expressos indícios do que pode ocorrer. Não se deve negar ou não escutar esse tipo de comportamento ou ameaças, que muitas vezes são expressas nas redes sociais, como foi o caso de Suzano e de um episódio em uma escola de Passo Fundo há alguns dias”, frisa Naiana.

E esse papel não é só da escola. “Os pais precisam estar atentos àquilo que seus filhos estão ouvindo e assistindo. Tem que monitorar o comportamento desses adolescentes, mas isso não significa que se tenha que invadir a privacidade, mas ter conhecimento sobre as amizades, pensamentos dos filhos, abrir espaços de interlocução, de discussão e de escuta para esses adolescentes”, pontua.

 

Projeto de Lei 3.688

O Projeto de Lei nº 3.688 tramita no Senado desde o ano 2000, e é requerido que haja a inserção de psicólogos e assistentes sociais em escolas públicas brasileiras. “Apenas com a presença de alguns profissionais em escolas privadas e de estagiários nas escolas públicas, não se consegue atender a toda a demanda que existe. O psicólogo cumpre esse papel de abrir um meio de interlocução com os alunos, com a escola e com a família, e assim, consegue pensar em formas de cuidado, de escuta, e de ajudar os profissionais da educação a perceber quando algo não vai bem e a fazer alguma intervenção, até porque os professores estão sobrecarregados nas escolas e a psicologia pode auxiliar nesse sentido”, afirma Naiana.

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