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08/04/2019
Saiba o que é a raiva herbívora e como ela pode afetar os animais

Por: Francine Tiecher

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Casos da doença vem sendo registrados no Rio Grande do Sul há cerca de 15 dias

 

A raiva é uma das doenças mais documentadas na história. A doença já é reconhecida há pelo menos 4.000 anos, e muitos dos primeiros registros relacionavam essa infecção a mitos e crenças religiosas.

Na natureza, o vírus da Raiva (RabV) é mantido por ciclos ocasionalmente interrelacionados, denominados ciclos “urbano e silvestre”, “aéreo” e “rural”. O ciclo urbano da raiva, se refere a manifestação em cães e gatos domésticos; o ciclo aéreo refere-se a raiva em morcegos, sendo os demais ciclos denominados ciclos “terrestres”; o ciclo “rural” refere-se a raiva dos herbívoros, que envolve principalmente os bovinos e equinos, e na qual o principal vetor (transmissor) é o morcego hematófago; já o termo “silvestre” refere-se a raiva associada a espécies silvestres, podendo englobar o ciclo aéreo.

Há cerca de 15 dias, produtores rurais do Norte do Rio Grande do Sul vêm relatando casos de morte de animais pela raiva herbívora. Mais de 50 bovinos já morreram devido à doença, que tem como principal sintoma a dificuldade de alimentação do gado, devido à paralisia muscular.

Mas o que é a raiva herbívora e como ela afeta os animais? Quem explica é o Coordenador do Curso de Medicina Veterinária da IMED, Dr. Deniz Anziliero.

“A raiva, no Brasil, apresenta-se em níveis distintos dependendo da região do país. Na região Sul, a raiva urbana (transmitida pelos cães) tem sido controlada. Os últimos casos em humanos nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina ocorreram na década de 80. Porém, casos de raiva urbana associados com outras fontes de transmissão têm ocorrido ocasionalmente, como casos relatados nos anos de 2001, 2003 e 2007. As demais regiões do país ainda apresentam casos de raiva urbana, porém o número está em declínio. Os cães eram considerados os principais vetores da raiva para humanos, porém desde 2003, os casos em humanos causados por cães foram suplantados pelas infecções transmitidas por morcegos”, comenta Deniz.

A maioria das infecções ocorre por transmissão percutânea, ou seja, através da mordedura dos morcegos nos animais. Na América Latina e consequentemente no Brasil, os morcegos hematófagos Desmodus rotundus são os principais hospedeiros silvestres do vírus.

“Em função de seus hábitos alimentares, os morcegos hematófagos são os principais transmissores da infecção aos bovinos. Não obstante, na indisponibilidade de bovinos para sua alimentação, os morcegos D. rotundus podem atacar outras espécies na busca de alimento, inclusive humanos”, alerta o docente.

Além dos problemas causados a saúde pública, a raiva traz sérios prejuízos econômicos à pecuária nacional. Deniz esclarece quais são os principais sinais do acometimento de raiva pelos animais. “A apresentação clínica da raiva pode ser muito variável, pois os sinais de comprometimento neurológico podem se apresentar de forma distinta. As apresentações clássicas da doença são as formas furiosa e/ou paralítica. A forma furiosa é mais frequente em caninos, que apresentam alterações de comportamento como inquietação (hiperexcitabilidade, agressividade), fotofobia, salivação. Já na forma paralítica, a forma mais comum que acomete os bovinos, o animal apresenta dificuldade de deglutição (alimentação) devido a paralisia muscular; podendo haver alteração do tom de voz do animal. Com o progresso da doença, os membros posteriores também podem ficar paralisados. A paralisia do maxilar inferior promove a impossibilidade de deglutição, e a salivação típica da forma paralítica da doença”, frisa.

O diagnóstico da raiva não deve ser baseado apenas em observações clínicas, especialmente porque outras enfermidades podem originar sinais semelhantes. “Paralelamente ao exame clínico, é fundamental a análise da situação epidemiológica, a história da infecção na região, a presença e a população de morcegos na região. A associação desses dados permitirá um diagnóstico presuntivo, que deve ser confirmado por testes laboratoriais. Surtos de raiva em bovinos geralmente acontecem de forma cíclica, diretamente influenciados por alterações climáticas representadas índices pluviométricos significativamente foram dos níveis normais”, explica Anziliero.

E como prevenir ou controlar casos de raiva em equinos e bovinos, especificamente? “A raiva dos herbívoros é controlada pela vacinação de animais em áreas endêmicas e pelo controle das populações de morcegos hematófagos. Para esse controle populacional, são geralmente empregados métodos baseados na aplicação tópica de uma pasta contendo uma substância anticoagulante, em morcegos capturados e, posteriormente, liberados para retornar a sua colônia. Como morcegos tem o hábito de higienização pela lambedura mútua, o anticoagulante aplicado pode levar a eliminação de vários indivíduos da mesma colônia. Outros métodos incluem a aplicação de pastas com anticoagulante em bovinos, em feridas de mordeduras de morcegos, por via intramuscular ou intraruminal, porém não são rotineiramente utilizados”, destaca o professor e médico veterinário.

É importante que, ao suspeitar de casos de raiva, o produtor realize a notificação dos episódios nas Inspetorias Veterinárias regionais e que, os profissionais Médicos Veterinários tenham cuidado no contato com os animais, sempre utilizando os equipamentos de proteção individuais.

 

**Fotos: Reprodução internet

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