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26/05/2020
Economia x saúde: realidade brasileira exige equilíbrio frente à Covid-19

Por: Eduarda Perin

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Segundo especialistas, o Brasil enfrenta desafios econômicos, sociais e sanitários no enfrentamento ao vírus

O cenário brasileiro frente à pandemia de Covid-19 motivou o debate entre profissionais das áreas de saúde e economia no webinar “Covid-19 no Brasil: realidades e consequências”.

Os painelistas Dr. Ademar Arthur Chioro dos Reis, médico sanitarista e ex-ministro da Saúde do Brasil, Dr. Carlos Augusto Scussel Madalosso, cirurgião do Aparelho Digestivo e diretor da Clínica Gastrobese, Dr. Cristian Fabiano Guimarães, psicólogo, pesquisador, professor e coordenador de planejamento da Secretaria Estadual de Saúde e Dr. Tiago Dalla Corte, empresário, investidor e economista debateram os desafios enfrentados pelo país diante do vírus que já matou mais de 24 mil pessoas.

O SUS no enfrentamento à Covid-19
Para Cristian Fabiano Guimarães, coordenador de planejamento da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, é a gestão estadual do Sistema Único de Saúde (SUS) que, desde o final de janeiro, tem trabalhado e conduzido o enfrentamento da Covid-19 no Estado. “Fica cada vez mais evidente que o SUS tem sido o diferencial no combate ao vírus no Rio Grande do Sul”, opina.

Essa afirmação, segundo Cristian, sustenta uma ideia contrária ao que se escuta sobre o SUS e sobre o serviço público, que historicamente são desvalorizados, de acordo com ele. “Se a gente deseja cuidar das pessoas e salvar vidas, o primeiro movimento é desconstruir a ideia de que o público é ruim e que a ciência não vale a pena”, enfatiza. Para ele, o enfrentamento do vírus depende do sistema público, dos bons profissionais e da ciência.

Sobre a relação das medidas de distanciamento social frente às questões econômicas, o pesquisador destaca que a saúde, o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social são indissociáveis. “Eles precisam andar em sintonia”, disse.

Economia deve encolher 5 a 10%
Para Tiago Dalla Corte, empresário, investidor e economista, o momento atual é de incertezas, e incertezas não combinam com um bom desempenho econômico e com a geração de emprego e renda. Sendo assim, neste contexto, a economia brasileira deve encolher 5 a 10% neste ano, confirmando o momento como a pior crise que a economia moderna brasileira já enfrentou.

Dalla Corte destacou que o Brasil é um dos países que mais sofre no mercado financeiro diante da crise mundial de Covid-19 pela relação complicada entre os dois principais parceiros comerciais do país: “Nós já vínhamos de alguns anos com um crescimento econômico global mais lento devido a uma guerra comercial entre Estados Unidos e China, os dois principais parceiros comerciais do Brasil, que fornece commodities como petróleo, plásticos e borrachas. 2019 foi um ano de quebra de expectativas em função dessa guerra comercial e as relações começaram a melhorar em novembro, fazendo com que as expectativas para 2020 fossem positivas. Quando o vírus chega, a relação entre EUA e China volta a endurecer e chega a um patamar ainda mais delicado do que o anterior, afetando diretamente o Brasil”, contextualiza.

A palavra daqui pra frente, segundo Tiago, é fragilidade. “Novos desdobramentos negativos irão acontecer deste movimento, teremos infelizmente mais rodadas tristes e uma fase de combate global ao desemprego”. Segundo ele, a “luz no fim do túnel” da economia brasileira é a confiança. No momento em que a confiança de investidores, consumidores e empresários dar sinais de crescimento ou até mesmo de estabilidade, o país poderá começar a projetar a retomada.

Colapso econômico também oferece riscos diretos a população
Cirurgião do Aparelho Digestivo e diretor da Clínica Gastrobese, Dr. Carlos Madalosso destacou que o Brasil enfrenta dois grandes desafios: o risco direto à saúde e o colapso econômico, que segundo ele, trará mais consequências aos brasileiros.  

O médico acredita que o melhor caminho é evoluir para a maior liberdade econômica. A afirmação é baseada na relação do desemprego com o número de óbitos por questões como depressão e violência. “O desemprego também mata. Há um estudo espanhol que relaciona o desemprego ao número crescentes de suicídios, de problemas relacionados ao álcool e de violência doméstica, por exemplo. Outro estudo croata também aponta que a depressão aumenta a criminalidade como a violência e ocorrências de furtos”, disse.  

Segundo ele, mesmo que a Covid-19 seja potencialmente letal, houve mais mortes em 2019 do que em 2020 no período. “Obtivemos êxito no achatamento da curva de incidência”, opinou. Para o médico, o colapso econômico é muito mais letal que a epidemia causada pelo coronavírus e um plano de retomada econômica será fundamental para salvar vidas.

Tendência de elevação nos casos e mortes
Por outro lado, o médico sanitarista e ex-ministro de Saúde do Brasil, Ademar Arthur Chioro, destacou que a tendência brasileira é de elevação no número de casos e óbitos.

Uma das maiores fragilidades do país, segundo ele, é na testagem: cerca de 3.461 testes são realizados por 1 milhão de habitantes, enquanto em países como Estados Unidos, Espanha, Itália, Alemanha e Rússia são testadas de 42 a 76 mil pessoas por 1 milhão de habitantes. “O que nos dá dificuldades de analisar a situação”, enfatiza.

Para Chioro, o Brasil tem que lidar com três grandes frentes: os desafios sanitários em dimensões globais e o impacto de enfrentar a pandemia, os graves efeitos econômicos e sociais, e um fator de agravamento que é a crise política, em que o governo age com negacionismo frente à gravidade da pandemia no país.

Sobre a flexibilização, Chioro destaca que a experiência internacional é um dos mecanismos fundamentais para se ter muita cautela na flexibilização do distanciamento. “O isolamento social é determinante para definir a quantidade de óbitos que teremos no Brasil”, finalizou.

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